Tarifaço de Trump: o que está em jogo entre Brasil e EUA
- Martello Contabilidade

- 5 de ago.
- 9 min de leitura
O tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros anunciado por Donald Trump no final de julho de 2025 representa um choque direto na economia nacional. A medida, que entra em vigor no dia 6 de agosto, já provoca tensões diplomáticas e reações econômicas imediatas no setor produtivo brasileiro.
Segundo Trump, a nova tarifa é uma resposta às “ações incomuns e extraordinárias” do governo brasileiro, que, na visão da Casa Branca, ameaçam a segurança nacional e os princípios democráticos dos EUA.
Balança comercial Brasil X EUA: uma relação historicamente assimétrica
Os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China. Em 2024, o Brasil exportou mais de US$ 40 bilhões em produtos para os americanos, enquanto importou cerca de US$ 42 bilhões, o que mantém um saldo historicamente positivo para os EUA. Segundo dados da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham), apenas no primeiro semestre de 2025, os americanos obtiveram superávit de R$ 1,7 bilhão com o Brasil — um número quase cinco vezes maior do que o registrado no mesmo período do ano anterior.
Trump, no entanto, justifica o tarifaço alegando “desvantagens comerciais” e discordância na condução de posicionamentos político/judiciário brasileiro.
Os impactos no Brasil e no mundo do Tarifaço de Trump
O tarifaço de Trump ameaça interromper cadeias de valor globais e pode provocar um redirecionamento forçado das exportações brasileiras. Setores que dependem dos EUA como principal destino enfrentam risco de estoques encalhados, cortes de produção e demissões. Em estados como Mato Grosso do Sul, Espírito Santo e Paraná, empresas já começaram a suspender embarques e colocar funcionários em férias coletivas.
Além disso, há preocupação de que o aumento de tarifas nos EUA desorganize o mercado e force a realocação emergencial de produtos para destinos menos vantajosos, inclusive com prejuízo.
Produtos mais afetados pelo tarifaço de Trump
O tarifaço de 50% anunciado por Donald Trump contra o Brasil atinge em cheio setores estratégicos da economia nacional. Os impactos vão muito além de uma simples elevação de preços — representam um verdadeiro redirecionamento de mercados e ameaçam a sustentabilidade de cadeias produtivas inteiras. Neste cenário, é essencial identificar os principais produtos afetados para entender a profundidade da crise.
Alguns dos principais produtos exportados pelo Brasil estão entre os mais afetados pelas novas tarifas dos EUA:
Café
Em 2024, o Brasil exportou quase US$ 2 bilhões em café para os EUA, representando 16,7% do total exportado;
A nova tarifa de 50% deve reduzir as margens de lucro e encarecer o produto para os consumidores americanos. Segundo o Cecafé, haverá impacto direto no preço final.
Carne bovina
Os EUA são o segundo maior destino da carne bovina brasileira. Em 2024, foram exportadas 532 mil toneladas, gerando US$ 1,6 bilhão;
A Minerva estima uma possível queda de até 5% na receita líquida devido à tarifa. Empresas com operações nos EUA, como JBS e Marfrig, podem reduzir parte dos impactos, mas o setor como um todo será fortemente afetado.
Frutas
Em 2023, o Brasil exportou mais de 1 milhão de toneladas de frutas. A nova tarifa atinge diretamente:
36,8 mil toneladas de manga;
18,8 mil toneladas de frutas processadas (principalmente açaí);
13,8 mil toneladas de uva;
7,6 mil toneladas de outras frutas.
O aumento de custos pode reduzir a competitividade das frutas brasileiras no mercado americano.
Têxteis
O setor não recebeu isenção geral. Apenas alguns itens muito específicos — como fios de sisal para enfardamento e produtos usados em aeronaves civis — ficaram livres da tarifa;
A indústria têxtil, que já enfrenta forte concorrência internacional, deve ser duramente prejudicada.
Calçados
Sem qualquer exceção, os calçados brasileiros serão tarifados integralmente;
O setor, fortemente dependente das exportações para os EUA, deve sofrer com a queda nas vendas e o aumento dos estoques.
Móveis
Apenas móveis classificados como “artigos de aeronaves civis” foram isentos, como assentos de aviões e móveis metálicos ou plásticos específicos para esse uso;
O restante do setor, incluindo móveis residenciais e comerciais, será tarifado, prejudicando os exportadores.
Tarifaço de trump: produtos isentos
Alguns produtos foram excluídos da tarifa por serem considerados relevantes para a economia americana:
Alguns produtos brasileiros foram poupados das novas tarifas dos EUA, o que alivia setores estratégicos da economia:
Setor Aeronáutico
A isenção inclui desde aeronaves completas até peças, motores, subconjuntos e simuladores de voo;
A medida beneficia empresas como a Embraer e sua cadeia de fornecedores, evitando rupturas contratuais com companhias americanas e preservando empregos altamente qualificados no Brasil.
Setor Automotivo
Foram isentos veículos de passeio (sedans, SUVs, minivans e vans), caminhões leves e suas peças e componentes.;
Isso ajuda a manter a competitividade das montadoras brasileiras e protege a indústria de autopeças contra prejuízos imediatos.
Energia e Derivados
Vários produtos energéticos ficaram de fora das tarifas, como:
Carvão;
Gás natural;
Petróleo e derivados (querosene, óleos lubrificantes, parafina, coque de petróleo, betume e misturas betuminosas);
Energia elétrica.
Essa decisão evita distorções no comércio de um dos setores mais relevantes da balança comercial brasileira.
Agronegócio (parcialmente)
Alguns produtos agrícolas foram excluídos da tarifação, como:
Suco e polpa de laranja;
Castanha-do-brasil;
Mica bruta;
Madeira tropical serrada ou lascada;
Polpa de madeira;
Fios de sisal.
Além disso, fertilizantes amplamente usados na agricultura também foram isentos, o que ajuda a conter custos no campo.
Mineração e Metais
Entre os produtos isentos estão:
Silício;
Ferro-gusa;
Alumina;
Estanho;
Ouro e prata;
Ferroníquel e ferronióbio;
Produtos ferrosos obtidos por redução direta.
Também ficaram fora da tarifa itens semiacabados e componentes industriais de ferro, aço, alumínio e cobre.
Eletrônicos
A tarifa não se aplica a:
Smartphones;
Antenas;
Aparelhos de gravação e reprodução de som e vídeo
Outras exceções:
Bens retornados aos EUA: Produtos enviados para conserto ou modificação.
Bens em trânsito: Mercadorias que já estavam a caminho dos EUA antes da medida entrar em vigor.
Produtos de uso pessoal: Itens incluídos na bagagem de passageiros.
Donativos e materiais informativos: Inclui livros, filmes, CDs, obras de arte e doações.
Tarifaço de Trump: Estados do Brasil mais afetados
A ameaça do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de aplicar uma tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras preocupa diretamente cinco Estados brasileiros, que concentram mais de 70% das vendas ao mercado americano. São eles: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo e Rio Grande do Sul, segundo levantamento da Amcham.
Esses Estados possuem economias fortemente ligadas às exportações industriais — que vão desde suco de frutas, aeronaves e ferro gusa até petróleo, café e calçados. A aplicação da tarifa pode tornar os produtos brasileiros inviáveis no mercado americano, o que resultaria em:
Perda de competitividade;
Queda nas exportações;
Corte de produção;
Demissões em setores industriais.
Além disso, a medida também afeta os Estados que mais importam produtos dos EUA. Caso o Brasil decida retaliar com tarifas — como autorizado pela Lei da Reciprocidade Econômica —, importações de medicamentos, máquinas e combustíveis também seriam impactadas, com efeitos diretos sobre o custo desses bens para empresas e consumidores.
Outro ponto sensível é a infraestrutura portuária e aeroportuária. Os principais canais de entrada e saída de mercadorias entre os dois países — como o porto de Santos (SP) e os aeroportos de Guarulhos e Viracopos — também seriam afetados por uma redução no fluxo comercial.
Consequências para produtores e consumidores
O ministro Wellington Dias já advertiu que, embora a queda nas exportações possa gerar, a curto prazo, um alívio inflacionário com preços menores de alimentos, o médio e longo prazo podem ser sombrios. A retração na produção devido à falta de estímulo pode:
Desempregar milhares no campo e na indústria;
Quebrar pequenas e médias empresas exportadoras;
Aumentar os custos com armazenagem de produtos perecíveis;
Atrapalhar o planejamento de safra futura.
O que o governo brasileiro pode fazer para driblar ‘tarifaço de Trump’
Com a tarifa de 50% prestes a entrar em vigor, o governo brasileiro estuda alternativas para driblar o impacto sem mergulhar em uma guerra comercial que possa se voltar contra a própria economia nacional. A complexidade da resposta exige uma combinação de diplomacia, medidas jurídicas e estratégias econômicas de curto e médio prazo.
Diversificação de mercados: menos dependência dos EUA
Uma das principais frentes de ação envolve a diversificação dos destinos de exportação brasileiros. Hoje, os Estados Unidos representam o segundo maior mercado para produtos nacionais, especialmente carnes, café, frutas, madeira e aviões. O objetivo do governo é acelerar negociações com países da Ásia, África e América Latina para redirecionar parte dessas exportações.
A ApexBrasil já iniciou tratativas com mercados alternativos, como Indonésia, Vietnã, Filipinas, Egito e Emirados Árabes. A ideia é garantir acordos sanitários, simplificação de trâmites alfandegários e linhas de financiamento para facilitar o acesso de exportadores a esses países.
Incentivos à industrialização local e maior valor agregado
O tarifaço também reabriu uma discussão estratégica: o excesso de exportações brasileiras com baixo valor agregado. Produtos primários, como carne in natura, café verde, madeira bruta e suco concentrado, são mais vulneráveis a barreiras comerciais. Em resposta, o governo estuda políticas de incentivo à industrialização local, que podem incluir:
Créditos com juros subsidiados para agroindústrias;
Apoio à instalação de frigoríficos, torrefações e fábricas de sucos voltadas à exportação;
Reformulação de programas de exportação via BNDES e Finep.
A proposta é transformar o modelo de exportação brasileiro e torná-lo mais resiliente.
Estímulo ao consumo interno e controle de estoques
Com a expectativa de queda nas exportações, setores como carne, frutas e mel devem sofrer com o excesso de oferta no mercado doméstico. Para lidar com isso, o governo considera estímulos ao consumo interno e apoio logístico para armazenagem, evitando o colapso de preços e o desestímulo à produção.
Segundo o ministro Wellington Dias, o equilíbrio entre o preço justo ao consumidor e a proteção ao produtor será uma das prioridades. A ideia é evitar uma retração produtiva em resposta à queda das exportações.
Incentivo à cooperação internacional
Outra frente envolve a articulação com outros países prejudicados pelo tarifaço. A ideia é formar um bloco de países afetados que possa pressionar os Estados Unidos conjuntamente na OMC e em fóruns multilaterais. A estratégia visa fortalecer o argumento de que a medida de Trump é isolada, política e contrária às normas do comércio global.
Além disso, o Brasil busca reforçar acordos comerciais com a União Europeia, Mercosul e países africanos, como parte de uma estratégia de médio e longo prazo para reduzir vulnerabilidades.
Foco na estabilidade cambial e controle fiscal
No campo econômico, o governo trabalha para garantir estabilidade cambial e evitar uma disparada do dólar — o que encareceria importações e elevaria a inflação. O Banco Central tem monitorado a situação e pode atuar no câmbio, se necessário. O Ministério da Fazenda, por sua vez, reafirmou que qualquer plano de contingência será construído sem romper o controle das contas públicas.
FAQ – Tarifaço de Trump
O que são tarifas de importação?
Tarifas de importação são impostos cobrados sobre produtos estrangeiros que entram em um país. Elas servem para proteger a produção nacional, equilibrar a concorrência com produtos locais e aumentar a arrecadação do governo.
Quem paga pelas tarifas de importação?
As tarifas são pagas pelas empresas importadoras, e não pelo país exportador. No entanto, esse custo costuma ser repassado ao consumidor final, que acaba pagando mais caro pelos produtos importados.
Para onde vai o dinheiro arrecadado com as tarifas?
O valor pago em tarifas vai direto para os cofres do governo que impõe o imposto. No caso do tarifaço dos EUA, os recursos arrecadados entram no Tesouro norte-americano.
Por que Trump aplicou tarifas a tantos países?
Trump adotou uma política econômica protecionista. As tarifas visam:
Proteger a indústria americana;
Reduzir a dependência de produtos estrangeiros;
Aumentar a arrecadação do governo;
Usar as tarifas como ferramenta de pressão em negociações políticas e comerciais.
As tarifas de Trump afetam o Brasil?
Sim. O Brasil foi um dos países mais afetados, com uma tarifa de até 50% sobre diversos produtos como café, carne, frutas, pescado e mel. No entanto, cerca de 700 itens brasileiros foram isentos, como suco de laranja, veículos, petróleo e aeronaves civis.
O consumidor americano vai sentir os efeitos das tarifas?
Sim. As tarifas tornam os produtos importados mais caros, o que pode levar a aumentos nos preços ao consumidor final e até contribuir para o aumento da inflação nos EUA.
O que o governo brasileiro está fazendo para reagir?
O governo federal, junto com governos estaduais, está preparando medidas emergenciais como:
Apoio financeiro a empresas afetadas;
Redução de tributos;
Linhas de crédito específicas;
Mapeamento dos setores mais vulneráveis para ações específicas.
As tarifas podem beneficiar alguém?
Sim. Produtores locais dos EUA podem se beneficiar, já que os produtos importados ficarão mais caros e menos competitivos. Isso pode levar ao aumento da demanda por produtos fabricados internamente.
Existe alguma motivação política nas tarifas contra o Brasil?
Sim. Segundo a Casa Branca, a imposição de tarifas ao Brasil também tem relação com questões políticas, como supostas ações judiciais contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. O ministro Alexandre de Moraes chegou a ser citado nominalmente em justificativas oficiais dos EUA.
Essa instabilidade pode comprometer a confiança dos investidores e a previsibilidade da política monetária. Além disso, se a crise comercial se prolongar, importadores e varejistas podem reduzir estoques por precaução, o que afeta diretamente a experiência de compra do consumidor final.
Fonte: Tax Group, por Anderson Mello.


