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Precisamos parar de nos cuidar tanto

21 de set.
3 min de leitura

...e porque vivemos a era do humano que se perde em si mesmo


Estamos nos cuidando demais.


Eu sei que isso soa quase ofensivo em uma época onde autocuidado virou virtude máxima, mas convenhamos: está tudo doendo em todo mundo o tempo inteiro. Pequenas frustrações viraram crises existenciais. Qualquer desconforto parece suficiente para desmontar emocionalmente uma pessoa inteira.


E talvez exista algo profundamente errado nisso.


Tudo começou quando transformamos proteção emocional em valor absoluto. A ideia parecia nobre: acolher dores, reduzir sofrimento, criar ambientes mais seguros, evitar traumas desnecessários. O problema é que, aos poucos, começamos a tratar qualquer forma de atrito como ameaça. A dor virou inimiga. O desconforto virou falha. O risco virou irresponsabilidade.


Achávamos que estávamos construindo pessoas mais saudáveis. Talvez estejamos construindo uma humanidade mais frágil.


Porque o viver humano exige atrito. O ser humano sempre amadureceu atravessando dificuldades, suportando incertezas, enfrentando medo, lidando com rejeição, fracasso, cicatrizes e limites. Grande parte da maturidade nasce justamente da capacidade de sobreviver emocionalmente ao que não controlamos.


Mas agora fugimos de tudo.


Fugimos do esforço porque ele cansa. Fugimos da cicatriz porque ela expõe imperfeição. Fugimos da velhice porque ela confronta nossa finitude. Fugimos do desconhecido porque ele ameaça nossa estabilidade. Fugimos do erro porque ele fere a imagem que construímos sobre nós mesmos.


E quanto mais fugimos, mais frágeis nos tornamos ( oi Taleb…).


Porque proteção excessiva produz atrofiamento emocional da mesma forma que um corpo sem esforço produz atrofia muscular. Existe uma musculatura psicológica que simplesmente não nasce em ambientes completamente acolchoados.


Só que talvez exista algo ainda mais profundo acontecendo:

Não estamos apenas frágeis. Estamos acovardados.


O excesso de autocuidado começou a nos aprisionar dentro da própria subjetividade. Passamos tanto tempo olhando para dentro, monitorando emoções, analisando gatilhos, protegendo vulnerabilidades e tentando estabilizar permanentemente nosso estado interno, que lentamente fomos perdendo uma das capacidades mais humanas de todas: olhar para fora. Para o outro. Para o mundo. Para o desconhecido. Para algo além de nós mesmos.


E talvez seja exatamente aqui que a cultura do autocuidado comece a se transformar em uma doença autoimune. Um sistema criado para nos proteger, mas que começa lentamente a atacar nossa própria capacidade de viver o que um humano de verdade pode ser.


Porque quando toda energia psíquica é usada para proteger o “eu”, sobra muito pouco espaço para coragem.


Coragem exige exposição. Exige risco. Exige possibilidade de dor.


Um ser humano excessivamente autocentrado começa a viver em estado permanente de autopreservação. Egosístas com ótimos motivos. Pessoas extremamente conscientes de si mesmas, mas progressivamente desconectadas da experiência profunda de existir no mundo.


Christopher Lasch talvez tenha percebido isso cedo demais ao falar sobre a “Cultura do narcisismo". O “eu” virou projeto central da civilização moderna. O outro já não aparece como encontro ou transformação. O outro existe apenas como espelho, validação ou reforço emocional para sustentar nossa própria identidade.


Estamos hiper conscientes de nós mesmos e profundamente desconectados da vida.


E o paradoxo é brutal. Nunca falamos tanto sobre saúde emocional, mas nunca parecemos tão emocionalmente incapazes de enfrentar a realidade comum da existência. Nunca tivemos tanto vocabulário terapêutico, mas ao mesmo tempo nunca parecemos tão frágeis diante da frustração, do conflito e do imprevisível.


Talvez porque força emocional não nasça apenas de proteção. Nasça também de exposição ao mundo.


Eu digo por mim: Eu quero rugas. Quero cicatrizes. Quero medo. Quero frustrações. Quero o desconforto de não saber exatamente quem serei depois da próxima travessia. Porque um humano inteiro não é alguém perfeitamente protegido. É alguém suficientemente vivo para se arriscar.


Talvez esteja na hora de cuidar menos obsessivamente de si mesmo e voltar a cuidar mais do outro, do mundo, daquilo que existe além da própria bolha. Resgatar o valor do erro, da descoberta, da imperfeição e da coragem.


Coisa de humano.


Porque talvez uma parte importante da saúde mental não esteja em evitar sofrimento o tempo inteiro : Talvez esteja em voltar a ter coragem de viver apesar dele.


Fonte: Humanos, por Piero Franceschi.

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