Penso, logo duvido. Duvido, logo resisto.
...e o fim da lógica do “ver para crer”
Compartilho uma interessante reflexão de Piero Franceschi sobre uma consequência cada vez mais relevante da Inteligência Artificial:
Estamos passando de uma época em que a tecnologia apenas selecionava aquilo que víamos para outra em que ela também é capaz de produzir imagens, vozes, vídeos e narrativas extremamente convincentes sobre fatos que jamais ocorreram.
O texto parte da conhecida ideia do “ver para crer” para propor uma mudança de comportamento: diante das novas tecnologias, ver ou ouvir algo já não será necessariamente suficiente para considerá-lo verdadeiro.
Para nós, a reflexão ultrapassa a curiosidade tecnológica.
Autenticidade de documentos, imagens, mensagens, áudios, vídeos e até instruções aparentemente transmitidas por clientes ou administradores passarão a exigir cuidados cada vez maiores.
Mas acrescentaria uma ressalva: a resposta não pode ser desconfiar de tudo.
O ceticismo absoluto pode ser tão prejudicial quanto a credulidade. A dúvida deve ser o ponto de partida para a verificação — e não um fim em si mesma.
Talvez a melhor síntese seja:
Antes: Ver para crer.
Agora: Ver, duvidar, verificar — E somente depois concluir.
A dúvida, nesse contexto, não significa negar a realidade. Significa exigir melhores evidências antes de aceitá-la.
A Realidade atráves de uma janela digital
Durante muito tempo acreditamos que a grande questão da tecnologia era o acesso à informação. Quem controlava a informação controlava o conhecimento. Quem tinha conhecimento tomava melhores decisões. Parecia simples.
Mas essa já não é mais a discussão. A questão agora não é apenas o acesso à realidade. É a própria realidade.
Vivemos boa parte da vida olhando o mundo através de uma janela digital. Notícias, vídeos, opiniões, tendências e pessoas chegam até nós por meio de telas. É através delas que entendemos o que acontece, formamos opiniões e decidimos o que merece atenção.
Essa janela nunca foi neutra.
O que chamamos de realidade já é, há algum tempo, uma construção mediada por algoritmos: uma curadoria invisível que influencia o que aparece, o que desaparece, o que ganha prioridade e o que sequer entra em nosso campo de visão.
A maioria acredita estar observando o mundo diretamente, quando, na verdade, observa uma versão editada dele.
É como observar o mundo de dentro de um aquário: tudo parece transparente, mas o vidro tem um dono.
Quando os mediadores passaram a criar
Durante anos, algoritmos funcionam principalmente como sistemas de recomendação. Escolhiam o que mostrar, organizavam conteúdos e hierarquizam informações. Eram mediadores da realidade.
Agora, porém, os mediadores ganharam um novo poder: o poder de criar.
A fronteira entre mediação e fabricação foi cruzada.
Não estamos mais falando apenas de máquinas que selecionam pedaços do mundo, mas de sistemas capazes de produzir representações extremamente convincentes de algo que nunca aconteceu:
Imagens que nunca existiram;
Pessoas que nunca nasceram;
Vozes que jamais pronunciaram determinadas palavras;
Vídeos de acontecimentos que nunca ocorreram.
A tecnologia deixou de apenas selecionar e editar aquilo que vemos. Agora também é capaz de produzir conteúdos sintéticos praticamente indistinguíveis, em determinadas situações, de registros autênticos.
Deepfakes, clonagem de voz, avatares digitais e conteúdos sintéticos representam mais do que avanços tecnológicos.
Eles modificam nossa relação com a verdade.
Durante muito tempo nos apoiamos em uma lógica simples:
“Ver para crer.”
Essa lógica, isoladamente, já não é suficiente.
Quando ver deixa de ser prova
Agora é preciso questionar justamente aquilo que vemos:
Uma imagem pode ser falsa;
Um vídeo pode ter sido manipulado;
Uma voz pode ter sido clonada;
Um documento pode ter sido artificialmente produzido.
E tudo isso pode ser apresentado com enorme capacidade de convencimento.
Talvez estejamos entrando em uma era na qual a verdade deixa de ser apenas algo observável e passa, cada vez mais, a ser algo investigável.
Não bastará olhar, será preciso verificar.
Não bastará consumir, será preciso questionar.
A dúvida como método
É aqui que a dúvida deixa de ser necessariamente um sinal de insegurança e passa a funcionar como instrumento de inteligência.
Em um ambiente no qual representações da realidade podem ser artificialmente produzidas, duvidar transforma-se em uma espécie de higiene mental e intelectual: a capacidade de interromper o fluxo de informações e perguntar:
“Mas será mesmo?”
Se as máquinas serão cada vez mais capazes de responder perguntas, produzir imagens, reproduzir vozes e construir narrativas, uma responsabilidade essencialmente humana será avaliar criticamente aquilo que recebemos.
Não pela negação sistemática de tudo.
Mas pela recusa em acreditar automaticamente em qualquer coisa.
O outro lado do problema
Há, entretanto, um cuidado igualmente importante.
Se a credulidade se torna perigosa em um mundo de conteúdos sintéticos, o ceticismo absoluto também pode ser.
Não podemos chegar ao extremo de considerar falsa qualquer fotografia, gravação, documento ou vídeo simplesmente porque poderia ter sido produzido por Inteligência Artificial.
A dúvida deve conduzir à investigação, não à negação automática.
Por isso, talvez a nova lógica não seja:
“Não acredito mais no que vejo.”
Mas:
“Aquilo que vejo é uma evidência. Se a decisão for relevante, verifico sua origem e autenticidade antes de concluir.”
Para Contadores e Advogados, uma questão muito concreta
Essa discussão pode parecer filosófica, mas possui consequências profissionais imediatas.
Imagine receber:
Uma mensagem de voz aparentemente enviada por um cliente autorizando uma transferência;
Um vídeo de um administrador solicitando determinada providência;
Um documento digital aparentemente autêntico;
Um e-mail acompanhado de documentos produzidos artificialmente;
Instruções aparentemente transmitidas por um sócio ou diretor;
Uma comunicação urgente solicitando alteração de dados bancários;
Participar de uma reunião virtual na qual imagem e voz de determinada pessoa tenham sido artificialmente reproduzidas.
Nessas situações, simplesmente “ver” ou “ouvir” poderá não ser suficiente.
Será necessário adotar procedimentos de autenticação, confirmação por canal independente e verificação da origem da informação, especialmente antes da execução de atos com consequências financeiras, societárias, jurídicas ou tributárias relevantes.
Para escritórios de Contabilidade, esse cuidado tende a deixar de ser apenas uma recomendação de segurança e passar a integrar os próprios controles internos e procedimentos profissionais.
O desafio é também humano
Hoje já vemos seres humanos utilizando máquinas para influenciar outros seres humanos.
Sistemas aprendem padrões. Identificam o que captura atenção, o que engaja e o que convence.
E um sistema não precisa possuir intenção própria para produzir consequências indesejadas. Os resultados dependerão dos objetivos, incentivos, dados e controles envolvidos em sua utilização.
Por isso, o desafio dos próximos anos não será apenas tecnológico.
Será também humano.
Em um mundo no qual máquinas podem produzir certezas artificiais, pensamento crítico, capacidade de questionamento e verificação de evidências tornam-se competências ainda mais importantes.
Talvez possamos resumir assim:
Talvez possamos resumir assim:
A dúvida protege.
A verificação confirma.
O conhecimento permite decidir.
E a reflexão de Piero Franceschi permanece como uma excelente provocação para os nossos tempos:
“Penso, logo duvido. Duvido, logo resisto.”
Fonte: Humanos, por Piero Franceschi.



